10 de jul de 2011

Episódio Um - Irmãos

Era uma tarde como qualquer outra, quem diria que minha vida mudaria pra sempre naquele dia? Não que ela fosse das melhores, eu mal sabia o que estava para acontecer. Via mas não queria ver, não queria.
Naquela tarde tudo era comum, minha mãe recebera mais um homem em seu quarto e enquanto ela trabalhava minha única função era cuidar do meu irmãozinho, ele estava brincando à porta de casa (que na verdade não tinha porta). Nossa casa era simples, de madeira, como todas as outras de nossa vila pobre, em seu interior só havia um quarto escondido e um corredor onde ficavam um sofá, uma mesa e uma geladeira. Em ambos os extremos de nossa casa retangular não havim portas ou paredes, de um lado era um terreno abandonado todo gramado e do outro uma cercazinha miúda de madeira e uma portinhola ao meio.
Enquanto eu cuidava de meu irmão distraí-me com os gemidos de minha mãe, eu não era de me aborrecer com aquela situação, eu era novo mas já entendia tudo aquilo, nunca havia parado pra ouvir a cena, mas aquele dia minha mente vagou nos gemidos por um momento, não sei ao certo o que se passava em meus pensamentos, talvez fosse uma vontade humilde de que minha mãe abandonasse aquela vida, mas era o que colocava o pão à nossa mesa. Quando me virei para cuidar de meu irmão eu não o encontrei, preocupado e com mau pressentimento sai disparado para fora de casa, foi quando me deparei com ele entrando numa caminhonete preta estranha, na nossa vila o povo ainda usava carroça e um carro tal como aquele só havia visto certa vez assistindo novela na casa de meu vizinho, o primeiro pensamento que me veio foi o óbvio, ele estava sendo seqüestrado por algum rico infeliz, meu coração gelou, nunca tinha sentido tanto medo, corri o máximo que podia e o carro saiu em disparada levantando poeira daquele chão de terra batida, meu irmãozinho, meu irmãozinho, a vontade era de chorar, mas eu estava concentrado demais pra isso, o motorista parecia perdido em nossa vila, pois subia e descia as ruas sem reconhecer a saída, então por um momento em que peguei um atalho vendo suas atrapalhadas me aproximei do carro, mas não podia competir contra ele, gritava por socorro, por ajuda, mas ninguém aparecia, foi então que eu vi um casal de namorados e uma moto na frente deles, implorei carona, pois não sabia pilotar, expliquei na pressa em que estava, “meu irmãozinho foi seqüestrado! Me ajuda pelo amor de Deus!”. O rapaz esboçou uma reação de quem queria ajudar, mas olhando a caminhonete preta em alta velocidade talvez tenha pensado que eram pessoas perigosas naquele carro, de alguma forma deve ter pensando em perigo, pois no mesmo lance que pareceu querer me ajudar ele se encolheu, fez que não me percebesse e se escondeu num abraço de sua namorada. Foi ai que o cansaço me paralisou, meu pulmão não suportava, meu coração doía, eu corri uma maratona em cinco minutos, então caíram as lágrimas, havia perdido meu irmãozinho, “Deus, me ajude, o que eu faço Senhor?”. Nessa hora me sobreveio uma tempestade de pensamentos, a culpa era minha, a culpa era de minha mãe, a culpa era de nossa vila pobre, nossa vida humilde, a culpa era do rico, quando ousei dizer que a culpa era de Deus me lembrei de minha avó, sentada em sua velha cadeira de balanço me dizendo que Deus sabe o que faz, que escreve certo por linhas “certas”, que para nós só cabe a fé. Foi esse pensamento que me acalmou, a fé em Deus, mas meu irmãozinho ainda estava naquele carro, lembrei-me de várias passagens da Bíblia, uma em que Jesus disse que tudo que pedíssemos em seu nome Deus nos daria, outra em que Ele disse que os passarinhos do céu não trabalham e nem por isso passam fome, aquela em que nos Céus há mais alegria por uma ovelha que estava perdida e foi encontrada do que por cem que não se perderam. “Deus me ajude a encontrar meu irmão em nome do Senhor Jesus”.

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Jesus nos guie.

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